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Entramos no Jardim


Meus pés descalços tremiam ao tocar aquele chão coberto de folhas. Era o mesmo jardim, o meu mesmo belo jardim. Aquele lugar não parecia pertencer a mim. 

Sentia que os galhos escondidos no meio daquela confusão de verde arranhavam a pele sensível dos meus dedos. Mas não ligava mais. Uma simples dor como aquela nunca poderia aplacar aquele vazio gritante que meu coração estava guardando há dias.


Procurei pelo meu canteiro de rosas e sentei-me no mesmo lugar ao sol de sempre. Gostava de sentir o perfume das flores, de escutar o farfalhar das árvores, dos raios luminosos aquecendo minha face. Era como se Ele falasse comigo através de tudo. Era Ele falando, disso eu tinha certeza. 


Mas naquela tarde, parecia tudo anormalmente quieto. Sentia como se ao invés de eu estar em um jardim, eu estivesse em um deserto.


Suspirei profundamente. O que poucos sabiam é que por trás de cada suspiro meu, eu guardava uma lágrima que achava desnecessária. Pode até parecer melancólico demais, mas naquele momento, eu sentia que era essa a grande verdade que eu tentava esconder de mim mesma.


Ouvi uma movimentação pelo jardim anormalmente quieto. Não ergui meus olhos pois sabia que além dEle, só uma pessoa poderia ir me procurar agora.


Rafael sentou-se ao meu lado, tomando cuidado para não prender suas belíssimas asas nas ramagens das flores que se encontravam atrás de nós.


- Perdida em pensamentos? – perguntou-me.


- Perdida em pensamentos. Sempre – suspirei e virei-me para poder olha-lo melhor – Como posso me perder dentro de mim?


- Está mergulhando no mais profundo de si mesma para tentar conseguir as respostas que deseja – disse ele calmamente – Mas sempre que faz isso, esquece que é necessário filtrar aquilo que vê e analisar tudo com sabedoria.


Olho com tristeza para meu Anjo da guarda, um dos meus mais fieis amigos neste mundo. Toco com delicadeza suas asas, sentindo a maciez das penas.


- Queria ter asas como as suas Rafa – sinto que uma lágrima traiçoeira rola sobre meu rosto – Queria voar pra bem longe daqui.


Desde pequena, sempre que eu precisei, Rafael segurou minha mão, nos melhores e nos piores momentos. Não é diferente neste momento.


- Querida, você sabe que não precisa ter asas para voar longe daqui. Sabe também que se quiser você pode ir embora. Ele te deu o livre arbítrio, assim como concedeu a mim também. Você não vai embora porque você fez uma escolha.


- Você sabe bem disso Rafael – sinto outra lágrima rolar – Eu não quero ter escolha, eu disse isso pra Ele. Eu sei que se eu tiver, eu vou embora daqui e nunca mais irei voltar. A melhor escolha que eu fiz na minha vida foi seguir somente a Ele e nada mais. Mas isso dói TANTO em mim! 


Rafael segura mais forte em minha mão. Eu sei que ele sofre ao me ver assim, pois sabe que não pode fazer nada além de me proteger do mal. Porém, ele faz muito mais do que apenas me proteger.


- Eu queria poder fazer mais por você Ana, me desculpe – vejo a tristeza em seu rosto e sinto meu coração doer ainda mais – Mas você precisa passar por isso.


- Porque Rafa? Porque precisa ser tão doloroso? – pergunto melancolicamente.


- Porque como você mesma disse, nós precisamos fazer escolhas – ele seca as lágrimas do meu rosto – Enquanto vocês permanecerem neste mundo, vocês irão precisar escolher de qual lado irão ficar. Alguns irão segui-Lo por um tempo, mas irão abandona-Lo no meio do caminho, pois acharão que há pessoas que valem mais a pena nesta vida. Outros não irão assumir o compromisso e somente viverão. Outros ainda tomarão partido do mal e lutarão para ver o reinado dEle e de seus seguidores acabar. Haverão também os discípulos que tentarão aprender a seguir os passos dEle a todo custo. Por fim, haverá ainda aqueles que serão como Maria, que lutarão no silencio de seus corações pela vitória do Herdeiro dos Céus.


- E quem sou eu Rafa? – me sinto um pouco mais calma ao ouvir a sua voz


- Você tentará ser como Ele querida – diz ele sorrindo – Tentará cuidar dos inúmeros filhos de Cristo que estão aqui na terra. Tentará combater o mal. Irá e fará discípulos entre todos os povos. Buscará aqueles que estão perdidos. Celebrará a volta dos filhos pródigos. Louvará na presença do Senhor. Adorará a Ele em Espírito e em Verdade. Cantará cânticos espirituais. Nascerá da Água do Espírito Santo. E terá coragem, pois neste mundo você terá muitas aflições, mas saber que o seu Salvador já venceu esta terra te motivará a continuar. 


Olho bem para meu anjo e nem consigo acreditar em tudo que acabei de escutar. Respiro profundamente e sinto que meu coração volta a pulsar no meu peito, não por obrigação, mas sim porque eu sinto renascer em mim a vontade de viver.


- Como sempre, você esta certo – dou um leve sorriso para ele – Mas como sabe que eu irei aguentar a tudo isso? Como sabe que eu irei conseguir vencer?


- Você é herdeira do Altíssimo, Ana – ele abre um sorriso ainda maior pra mim – Ainda há em você esperança de que irá conseguir. Nas fraquezas, o Espirito irá interceder por você. Jesus morreu por amor a você. Nem a tribulação, a angustia, a perseguição, a fome, a nudez ou qualquer outra coisa que provém do mal poderá te afastar do amor do Senhor. A vitória que você deseja conquistar já foi alcançada na Cruz! E por isso, em tudo você é mais que vencedora, porque Ele te ama!


Sinto que estou chorando de novo, mas dessa vez é de alegria. Abraço Rafael e ele me embala, me protegendo como sempre fez.


- Eu vou lutar Rafael – digo com um fiozinho de voz.


- Eu sei que vai – ele responde calmamente.


- Você vai ficar comigo?


- Vou. Iremos lutar lado a lado, para sempre, até o céu.


Solto um suspiro de alivio. Sei que o desespero irá vir novamente. Sei que a batalha é intensa. Sei que o inimigo é assusto o suficiente para tentar me enganar outra vez.


Mas se Jesus conseguiu, porque eu não conseguiria? Não estaria Ele a me amar? E Maria não iria interceder por mim? Rafael não estaria me protegendo? Nossa aliança não estava firmada, até o fim da minha vida?


Se o Senhor dos exércitos está comigo, porque temerei o mal ao passar no vale das sombras?


Sorrio por fim. Quem é esse Deus pra me amar tanto assim? E quem sou eu para receber um amor tão puro e maravilhoso como esse? 


Neste momento, não tenho palavras para expressar a minha imensa gratidão por estar viva ainda.
Levanto-me e arrumo minha túnica branca. Estendo a mão para Rafael.


- Para onde vamos senhorita? – ele se levanta sorrindo.


- Para onde nós nunca deveríamos ter saído – respondo determinada – Para o campo de batalha.


Os olhos dele brilham de uma maneira intensa. Tenho certeza de que o mesmo brilho reflete em meus olhos.


- Que bom que Deus me deu você como Anjo – beijo a mão dele – Te amo Rafael!


Rafael sorri ainda mais e beija minha testa. Sinto ele apertar minha mão com muita força.


- Também te amo pequenina. Vamos vencer essa batalha juntos.


Nos viramos para atravessar o jardim. Antes de irmos, colho duas rosas do meu canteiro. Sei que o altar de Deus ficará muito mais bonito com aquelas flores.


Andamos lado a lado e me alegro ao saber que onde Deus estiver, encontrarei ali também um lugar especial para eu ficar.

Mas para onde vão os pássaros?



Meu nome é Charlie e este é mais um dos meus dias pacatos, em que eu coloco fones de ouvido e me perco em pensamentos.

Sai de casa, comecei a caminhar sem rumo pelas ruas de concreto dessa cidade tão cheia de gente vazia. Quando percebi, já estava no parque e encarava o céu azul que eu tanto amava. Havia sentado sobre a grama, com meu bloco de desenhos/anotações e um lápis na mão.


Olhei para a folha em branco. Eu gostava de expressar os meus sentimentos, que são muitos na maioria das vezes. A minha mente se assemelha a uma vasta galáxia: um aglomerado de inúmeros membros do corpo cósmico que ao se colidirem, formam novos membros para sua equipe desordenada. Talvez você não entenda com essa explicação, mas é exatamente isso que se passa na minha cabeça: uma confusão de estrelas, planetas, buracos de minhoca e entre tantas outras coisas confusas que não consigo desvendar e nem enumerar.


Pensei em transcrever tudo isso de alguma maneira na folha, mas sinceramente, eu não seria capaz de tal feito. Coloquei o bloco e o lápis de lado e deitei na grama, olhando para o céu. Comecei prestar atenção nos pássaros que viajam pelo ar de uma maneira que me fazia acreditar que qualquer um (inclusive eu) poderia fazer a mesma coisa.


E me ocorreu o seguinte pensamento: “Mas para onde vão os pássaros?”.


Achei interessante esse pensamento e direcionei meu foguete para aquela nova rota que havia surgido no universo da minha mente.


Nós, humanos, parecemos estar constantemente sem rumo. Pelo menos, as pessoas que vivem nesta selva de pedra parecem ser assim. Muitas vezes observo muitos traçarem uma rota e logo em seguida desviarem para um novo percurso... Logo que encontram uma bifurcação diferente, novamente desviam a direção. Parece até que ninguém sabe andar em linha reta! E enquanto assisto essa mesma cena se repetir, como as novelas que reprisam sem parar na TV, vejo também muitos se perderem...


...E se perdem...


...Se perdem no vazio da própria existência.


Eu não entendo. A essência da vida está totalmente impregnada em nosso ser, de modo que até nas pequenas coisas nós exalamos esse perfume. Quando andamos, quando falamos, até mesmo quando respiramos é como se estivéssemos repetindo o nome dEle. Esta tão na cara! Porque as pessoas ainda insistem em buscar a razão para continuar no fim da linha? Porque as pessoas querem se encontrar em lugares perdidos?


Porque?


Lembro então da pergunta que havia feito a mim mesmo há alguns minutos atrás.


Mas para onde vão os pássaros?


Os pássaros são livres, livres para fazerem aquilo que eles desejarem. Não se diferenciam tanto assim de nós, pois também possuímos o livre arbítrio. Mas a real diferença está em que a vida deles já está toda planejada desde o momento em que eles abriram os olhos pela primeira vez. Não que eles sejam isentos de qualquer tipo de contratempo que os obriguem a mudar o caminho planejado. Mas independente disso, eles sabem pra onde ir. Eles sabem onde eles irão encontrar um refúgio seguro.


Fecho os olhos e me viro de lado, abraçando meu corpo. Parece bobo, mas isso tudo me incomoda muito. Eu não conheço nem 5% desta cidade... Por que então eu quero tanto que todos saibam que são conhecidos e amados por Ele? Quem sou eu no meio dessa multidão? Ninguém não é mesmo? Deveria apenas estar seguindo pelos caminhos retos que Ele me ensinou, sem atrapalhar ser algum, certo?


Talvez seja isso, mas sinto que não é só isso. Aqueles pássaros tinham a mesma perspectiva de caminho que eu. Porém, havia um diferencial: eles não estavam sozinhos.


Mas como eu, um mero ninguém poderia ajudar aquela cidade inteira?


Esse pensamento pesa em meu pequeno coração. Suspiro profundamente e sinto aquele sentimento de dor me tomar por completo.


Escuto então uma voz falar em meu ouvido: "O que importa é chegar lá. Deve sim seguir no Meu caminho e deve fazer o bem para as pessoas. Mas saiba, não importa o que aconteça, apenas chegue lá."


Sinto um arrepio percorrer meu corpo. Parece até que o sol começou a arder mais, acalentando meu ser. Escuto o vento passeando pelas folhas das árvores ao meu redor. Tudo isso é Ele, essa é a certeza que perpassa meu coração.


Me sento e pego meu bloco e meu lápis novamente. Escrevo na folha em branco, com letras garrafais a palavra "Amor".


Decididamente, é assim que eu vou chegar lá.
 
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